Ao despertar, Su Ping ficou surpreso ao descobrir que havia transmigrado para o Continente Shenzhou, um mundo onde coexistem artes marciais místicas e demônios vorazes. Contudo, nessa terra, todas as demais aptidões são inferiores diante do prestígio do saber. Apenas os estudiosos são tidos em alta consideração, podendo influenciar as decisões do próprio imperador, suas palavras carregando autoridade celestial. Grandes eruditos comandam as leis do mundo, semi-sábios falam com a voz do firmamento, e os santos iluminam todas as eras. Como estudante das letras, Su Ping decidiu trilhar resolutamente o Caminho do Confucionismo, dedicando-se dia e noite aos estudos, galgando degrau por degrau até tornar-se um Santo das Letras. Porém, para sua surpresa, devido a uma dívida de gratidão que seu pai tinha para com o Duque do reino, os descendentes da Casa Ducal, por mera aparência, exigiram que ele se tornasse genro por afinidade, ingressando na família como esposo de segunda ordem. Ao adentrar a residência do Duque, passou a ser alvo de intrigas e desdém. Apesar de desfrutar de riquezas e privilégios, vivia como um pássaro enjaulado. Por isso, dedicou-se ainda mais ao estudo, e no dia dos exames imperiais, Su Ping utilizou os textos de sua vida passada para deslumbrar o mundo, marcando época e eternidade. Assim, passo a passo, libertou-se do papel de genro dependente e alcançou o posto de maior expoente do Caminho do Confucionismo. Estabeleceu o coração do mundo, definiu o destino do povo, deu continuidade ao legado dos sábios antigos e abriu uma era de paz e prosperidade para todas as gerações!
Ano doze da era Yongtai, verão.
Condado de Anping, vila do Rio Pequeno.
No auge do verão, uma forte chuva levou embora grande parte do calor sufocante, trazendo uma brisa fresca e rara.
Sob a sombra de uma árvore, o senhor Ge, já nos seus quarenta anos, descansava de olhos semicerrados em sua cadeira de balanço, o rosto repleto de satisfação.
Não muito longe dali, sob a copa espessa, um jovem vestido com roupas rústicas de linho estava curvado sobre uma mesa de pedra, copiando sem parar um livro encadernado à mão. Ao seu redor, no chão, diversas folhas já transcritas estavam dispostas, presas por pedrinhas para secar.
Essa cena chamou a atenção de muitos aldeões que passavam.
— Vejam só, o jovem mestre Su é mesmo formidável, reconhece tantos caracteres! — exclamou Dona Li, admirada.
— Pois é — acrescentou Seu Wang, orgulhoso, como se o rapaz fosse seu próprio filho —, não olhe para o livro pensando ser fino, eu te digo, ali dentro há pelo menos uns milhares de caracteres!
— Milhares de caracteres! — os demais aldeões ofegaram, espantados.
— Se meu filho Tiedan tivesse metade da inteligência dele, eu já me daria por satisfeito e honraria nossos ancestrais — lamentou Liu Erzhu, invejoso, maldizendo a sorte de não ter gerado um filho tão esperto.
— Inteligência não é tudo, tua família pode pagar pelos estudos? — retrucou Zhang Cuihua, com um tom ácido. — Por mais talentoso que Su Ping seja, não pôde ir à escola do condado, no fim tudo é em vão.
Diante dessas palavras, todos se calaram por um instante.
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